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A voz do Jockey

Em abril de 1972, o menino de 11 anos entrava pela primeira vez no Jockey Clube Pontagrossense. Foi paixão à primeira vista. Os cavalos correndo, a emoção da disputa e a tradicional foto da vitória com a dupla campeã. De lá para cá, são quase cinco décadas dessa relação: Diomar Alceu Taques Guimarães e o turfe. Mas antes de contar como o radialista de destaque na comunicação princesina se tornou dono ‘da voz do Jockey’, vamos voltar ainda mais no tempo, porque essa história é muito longa.
 

Na década de 20 o senhor Arthur Gomes acompanhou o surgimento do Jockey Clube Pontagrossense, ele era o que chamavam de ‘turf-man’, um amante dos cavalos e do esporte. A herança foi passando de geração em geração: o filho Laurival criava cavalos, o neto Dioceu além de ser proprietário de animais chegou a assumir a direção do Jockey. E coube ao bisneto Diomar, primogênito do casal Dioceu e Marlene, abraçar a missão de dar continuidade à paixão da família.
 

Quando Diomar era criança o turfe era um esporte de prestígio e ao mesmo tempo popular. Nos fins de semana, o ‘point’ das famílias ponta-grossenses era o Jockey, e as corridas de cavalo que aconteciam todos os sábados eram ‘o programa’. Os Guimarães estavam sempre por lá, Diomar, gostava de ficar na cabine de transmissão das corridas. Ficava observando a forma como os profissionais narravam os páreos para as rádios e para o público que se fazia presente. Os olhos na pista e os ouvidos atentos à transmissão.
 

Em um daqueles sábados, o narrador da Rádio América faltou. Diomar, com apenas 15 anos de idade estava lá. Foram três páreos sem transmissão. No quarto, um diretor do Jockey perguntou ao jovem se ele poderia narrar. “Eu muito nervoso, disse ‘não sei’. Mas eu me encorajei e transmiti a corrida, e transmiti muito mal. Muito mais pelo nervosismo, do que por não saber narrar, porque eu treinava em casa, só que pegar o microfone pela primeira vez não é fácil”, relembra.
 

Na corrida seguinte, o narrador oficial voltou, mas o destino de Diomar já estava traçado. No ano de 1976, seu Dioceu foi procurado pelo senhor Iraci Trevisan, dono da extinta rádio Vila Velha, para falar sobre o talento do menino narrador. Com apenas uma corrida na carreira, ele queria que Diomar fosse a voz da emissora no que dizia respeito ao turfe. No primeiro emprego da vida, o adolescente ganhava mil cruzeiros – pagos em dez notas de cem -, dinheiro que dava para ele se manter sem precisar ficar pedindo dinheiro para o pai. “Ai eu me transformei em um narrador, fui me adaptando e familiarizando com o microfone, recebia muitos elogios e aquilo me deu confiança para continuar e cada vez mais gostar daquilo que fazia. Pra mim era um prazer narrar uma corrida de cavalo. Fui me aprimorando, e o Jockey não está funcionando mas eu sou o narrador oficial do Jockey”, conta.
 

Diomar se tornou uma voz conhecida na cidade, não apenas pelas corridas de cavalo. O turfe moldou o talento do jovem e abriu as portas no meio de comunicação do qual ele nunca mais saiu. Quanto ao turfe, o radialista só deixou de narrar as corridas no período que ocupou o cargo de diretor do Jockey e lamenta por hoje não ter tantos páreos para transmitir como antes. “Antigamente todo sábado você tinha corrida no Jockey, então a família tinha o programa, então a partir do momento que as corridas foram espaçadas, uma por mês, muita gente nem fica sabendo que tem, e isso dificulta a presença”, conta.
 

Além dos problemas estruturais pendentes que impossibilitam as corridas no Jockey Clube Pontagrossense, há ainda outro problema, que segundo o turfista, não é exclusividade da cidade, mas reflete uma situação enfrentada por todos os jockeys do país, e que caso nada seja feito pode fazer com o turfe desapareça. “Na época em que eu era adolescente e comecei a frequentar o turfe, nós tínhamos aqui em Ponta Grossa vários turfistas, criadores, amantes, proprietários, e com o passar do tempo, as novas gerações que vieram, filhos desses turfistas, até pela falta de corrida no Jockey, não houve uma renovação”, lamenta.
 

Para Diomar algo precisa ser feito para atrair o público que ainda não conhece, ou quem sabe, nem sabe que Ponta Grossa tem um Jockey. Do ponto de vista do turfista que já ocupou vários cargos na diretoria do Clube, uma possível solução seria criar um espaço diferenciado para os jovens, algo que fizesse com os o Jockey voltasse a ser um ponto de encontro de amigos, o que atrairia mais pessoas. Se uma parcela desses visitantes saísse tão apaixonada quanto o jovem Diomar, saiu naquela tarde de sábado, de 1972, não haveria com o que se preocupar.          

 

Ouça um pedaço de uma corrida – fictícia- na voz de Diomar Gimarães.

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